A Relação da Humanidade Com o Oculto e o Mítico
Explicação Inicial#
Antes de começar, quero deixar claro de que nada dito aqui tem a intenção de te fazer acreditar em algo, são apenas viagens que eu tenho em momentos de insônia. Peço que leiam com a mente aberta e sem as travas mentais dos preconceitos, pois como dizia Aristóteles:
"O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete."
Então abandone suas certezas e vamos refletir sobre o assunto.
A Magia e o Ocultismo#
A magia e o ocultismo são temas absolutamente fascinantes, principalmente quando olhamos para eles através das lentes da história, da psicologia e da antropologia. Se descolarmos o termo dos clichês de Hollywood (como raios saindo das mãos ou poções borbulhantes), o ocultismo — que significa literalmente "conhecimento escondido" — nada mais é do que uma das tentativas mais antigas da humanidade de entender os mistérios do universo e o funcionamento da própria mente.
1. A Raiz da Ciência Moderna#
É impossível falar de ciência sem dar o braço a torcer para o ocultismo. A química nasceu da alquimia; a astronomia evoluiu de mãos dadas com a astrologia. Grandes mentes da história, como Isaac Newton, passaram anos decifrando textos alquímicos e ocultistas. O desejo de decifrar o "oculto" foi, por muito tempo, o principal motor para a descoberta das leis da natureza.
2. Antropologia e Cultura#
Cada cultura tem sua própria forma de magia e misticismo. Seja o xamanismo, a Alta Magia europeia, a Cabala ou as religiões de matriz africana, essas práticas refletem como diferentes povos organizavam seus valores, medos e esperanças. São sistemas ricos de filosofia e herança cultural.
Em resumo: Quer você encare a magia como algo espiritual e literal, quer veja apenas como uma metáfora psicológica para o autoconhecimento e o desenvolvimento pessoal, o ocultismo é um espelho da busca humana por controle, significado e conexão com o desconhecido.
A Busca Constante da Humanidade#
Se formos considerar que a humanidade busca o conhecimento oculto a séculos, podemos chegar em algumas hipóteses:
- Não é real e por isso a busca continua;
- É real, mas a humanidade ainda não conseguiu decifrar;
- Algumas pessoas sim conseguiram decifrar, mas decidiram que o conhecimento era perigoso demais pra ser de conhecimento público;
- Na verdade as lendas e mitos são uma forma de nos mostrar a realidade, mas de forma lúdica, para apenas aqueles a quem entendem a mensagem consigam desvendar o mistério;
Olhando de perto para cada uma delas, o cenário fica ainda um tanto intrigante:
Hipótese 1: Não é real e por isso a busca continua#
Essa é a visão do ceticismo puro e da ciência materialista. A mente humana é uma máquina de buscar padrões, mesmo onde eles não existem. Se algo não funciona, mas atiça nossa imaginação ou nosso desejo de controle sobre a vida e a morte, nós continuamos tentando. É o efeito de "correr atrás de uma cenoura amarrada na corda": a busca continua justamente porque o prêmio final é uma ilusão intangível.
Hipótese 2: É real, mas a humanidade ainda não conseguiu decifrar#
Essa hipótese flerta muito com a ciência de vanguarda. O que hoje chamamos de "magia", no passado, poderia ser apenas a física que ainda não compreendíamos.
Se você levasse um smartphone, ou mesmo um telefone daqueles antigões, para a Idade Média, seria queimado na fogueira por bruxaria.
Da mesma forma, fenômenos que o ocultismo estuda há séculos — como a influência da intenção na matéria, a mecânica quântica, ou estados alterados de consciência — podem ser forças reais do universo que a nossa ciência atual simplesmente ainda não tem tecnologia ou modelos matemáticos para medir e explicar perfeitamente.
Hipótese 3: Alguns decifraram, mas o conhecimento é perigoso demais#
Essa é a base de todas as sociedades secretas (como os Maçons, Rosacruzes e os antigos Mistérios de Elêusis). Historicamente, essa hipótese é real em termos políticos e sociais. Na antiguidade, saber matemática, astronomia ou metalurgia avançada dava a um grupo um poder imenso sobre os outros. Se qualquer pessoa soubesse como manipular a pólvora ou prever um eclipse, o poder dos reis e sacerdotes ruía. Então, sim, o conhecimento era guardado a sete chaves porque conhecimento é poder — e poder sem controle gera caos.
Hipótese 4: Mitos e lendas são a realidade de forma lúdica#
Esta é a visão iniciática e psicológica (muito defendida por hermetistas e pelo próprio Carl Jung). Os mitos não seriam mentiras, mas sim "mapas" codificados em metáforas. A mente humana processa símbolos muito melhor do que lógica pura.
- Por exemplo, quando a alquimia fala em "transformar chumbo em ouro", os iniciados sabiam que o chumbo representa a mente bruta, ignorante e pesada, enquanto o ouro é a consciência iluminada e evoluída. Quem lê literalmente vê uma receita química (que falha); quem entende o código decifra uma fórmula de transformação psicológica.
Se olharmos para a história, a realidade parece ser uma mistura da 3 e da 4. A humanidade sempre usou metáforas lúdicas para proteger o conhecimento daqueles que poderiam usá-lo de forma destrutiva ou superficial.
A Hipótese da Camuflagem Cognitiva#
Imagine que a magia e as artes ocultas realmente existem, e são retratadas fielmente na arte e mitologia, porém com elementos chave mantidos sob sigilo, ou simplesmente distorcidos, como uma forma de bloquear a porta, afinal a forma mais fácil de esconder algo é o colocando em plena vista. Por exemplo, pode haver sim uma forma de lançar uma bola de fogo, raios ou água, porém podem haver instrumentos ou encantamentos específicos pra isso, que não são mostrados, ou, ainda, mostrados de forma incorreta, assim aqueles que tentarem, ao se depararem com a evidência de que aquilo não vai dar frutos, desistissem ou até descartasse a simples possibilidade de ser real.
Como eu disse, a forma mais fácil de esconder algo é mantê-lo a vista
Essa é uma linha de raciocínio que encontra um paralelo perfeito em uma tática militar e de espionagem muito real: a dissimulação por saturação ou ocultamento à vista de todos. A lógica é perfeita — se você proibir algo, as pessoas vão investigar; mas se você ridicularizar, fantasiar ou entregar a fórmula errada de bandeja, as próprias pessoas vão se encarregar de desacreditar o assunto.
No universo do ocultismo tradicional, essa ideia tem até um nome técnico: Blinds (ou "cortinas de fumaça").
Os antigos mestres e autores de grimórios faziam exatamente isso. Eles publicavam livros inteiros com rituais e fórmulas, mas omitiam propositalmente um ingrediente crucial, invertiam a ordem dos fatores ou usavam palavras com duplo sentido. Quem tentasse reproduzir a receita sem ter a "chave" (o conhecimento transmitido oralmente de mestre para discípulo) falhava miseravelmente, se frustrava e passava a dizer que aquilo tudo era bobagem. O segredo se auto protegia através do ceticismo gerado pelo fracasso do leigo.
Se puxarmos essa linha de raciocínio para o nosso mundo atual, podemos dividi-la em duas perspectivas fascinantes:
1. A Visão Literal (A Física Desconhecida)#
Se pensarmos na "bola de fogo" ou em fenômenos físicos inexplicáveis, essa teoria faz todo sentido dentro da lógica de que a magia seria uma ciência que opera sob leis da natureza que a maioria desconhece. Para que essa energia se manifeste no mundo físico, seriam necessários "gatilhos" específicos: frequências sonoras exatas (os encantamentos corretos), estados alterados de consciência hiper específicos ou catalisadores materiais que a cultura pop omite, distorce, ou desconhece, para que pareça apenas fantasia de Hollywood.
2. A Visão Psicológica e Energética (A Mudança da Realidade)#
Para muitos magistas ocidentais (como os praticantes da Magia do Caos), a "bola de fogo" é a metáfora perfeita. Eles argumentam que a magia não serve para violar as leis da física macroscópica, mas sim para alterar as probabilidades da realidade através da mente.
Nesse caso, a "porta bloqueada" seria o ceticismo e o "ruído" da sociedade moderna. O segredo guardado à vista de todos é que a mente humana tem a capacidade de plasmar a realidade, mas fomos tão condicionados a acreditar que somos impotentes que a nossa própria mente sabota o processo. A ficção nos mostra o poder escancarado exatamente para que o encaremos como "coisa de criança", “fantasia”, ou entretenimento.
"O labirinto é protegido não por muros, mas pela certeza do homem de que não há labirinto nenhum."
Essa dinâmica de esconder expondo o tempo todo cria o filtro perfeito: ela afasta os curiosos que buscam poder rápido e sem esforço, e teoricamente reserva o verdadeiro conhecimento apenas para quem tem a paciência de decifrar as entrelinhas, estudar os símbolos e testar exaustivamente além do que está na superfície.
Então Como e Por Quem o Segredo Seria Guardado?#
Se formos pela linha hermetista, os iniciados seriam os discípulos de Hermes, que espalhou o conhecimento oculto pelo mundo e o codificou, porém mesmo nessa linha, se pensarmos mais a fundo, Hermes provavelmente não nasceu com esse conhecimento, assim como o enigma da galinha e do ovo, podemos pensar tanto na hipótese de que alguém foi a origem do conhecimento, como de que alguém o descobriu na própria natureza.
E se formos a fundo nessa segunda, o hermetismo, assim como a ciência moderna é uma forma de desvendar as leis e regras que regem o universo, nesse caso, basta alguém redescobrir esse conhecimento, que, mesmo sem ser um iniciado, ele poderia acabar se tornando a nova fonte do conhecimento.
Se pensarmos ainda mais longe, Buda não teria contato com Hermes (talvez com algum discípulo), então não teria ele redescoberto as leis por si mesmo ao enfrentar sua jornada?
Filosofia Perene (Philosophia Perennis)#
Essa é a ideia de que existe uma verdade única, universal e eterna sobre a natureza da realidade, e que diferentes culturas, em diferentes épocas, chegam exatamente às mesmas conclusões de forma independente, simplesmente porque estão observando o mesmo universo.
Vamos a uma analogia com a ciência moderna: Pense na gravidade: Isaac Newton e Albert Einstein não "inventaram" a gravidade. Eles apenas a descreveram usando ferramentas e linguagens de suas épocas. Se a humanidade inteira sofresse uma amnésia coletiva e todos os livros de física fossem queimados, em algumas centenas de anos nós redescobriríamos a gravidade, a eletricidade e a termodinâmica exatamente da mesma forma. As leis da física não dependem de Newton para existir.
O mesmo vale para as leis ocultas ou herméticas:
A Redescoberta da Fonte#
Se as leis que regem o invisível (a mente, a energia, a consciência) são reais, elas estão codificadas na própria estrutura do cosmos. Hermes Trismegisto — seja ele uma figura histórica real, um mito ou um arquétipo — teria sido apenas um cientista do espírito que observou a natureza de forma profunda e catalogou o que viu (o que hoje conhecemos como as 7 Leis Herméticas, como a Lei da Vibração e a Lei de Causa e Efeito).
Portanto, qualquer pessoa, em qualquer lugar do tempo, com o nível certo de percepção, disciplina e isolamento, pode "sintonizar" a mesma frequência e redescobrir tudo do zero. Ela se torna uma nova fonte, sem precisar de pergaminhos antigos ou apertos de mão secretos.
O Caso de Buda e a Conexão Universal#
O exemplo sobre Sidarta Gautama (o Buda) é o teste definitivo dessa hipótese. Historicamente e geograficamente, o Budismo primitivo e o Hermetismo egípcio/grego operaram em mundos completamente distantes. E, no entanto, quando você olha para o que ambos descobriram, os paralelos são assustadores:
Buda não precisou ler as tábuas de esmeralda de Hermes. Ele sentou-se embaixo de uma árvore (Ficus religiosa) e olhou para dentro de si mesmo com tanta profundidade que acabou olhando para o próprio mecanismo do universo.
Isso nos leva a concluir que a nossa segunda hipótese está corretíssima: as ordens iniciáticas e os segredos guardados servem apenas como um "atalho" ou um mapa deixado por quem já fez a viagem. Mas a estrada — que é a própria natureza e a mente humana — está aberta para qualquer um que decida caminhar por ela por conta própria.
O Porque Não Redescobrimos Essas Leis#
Se o segredo está escondido na própria natureza e qualquer um pode redescobri-lo, por que a maioria de nós passa a vida inteira sem perceber essas leis, mesmo elas estando escancaradas na nossa frente todos os dias?
Bom, nós vivemos em um mundo tão barulhento e caótico que dificilmente temos a oportunidade e a vontade de encontrar o silêncio e olhar para dentro de nós mesmos, seria extremamente difícil, no mundo moderno, alguém ter o privilégio de se sentar e meditar por horas e conseguir clarear a mente de forma que possamos encontrar o observador dentro de nós.
E aqueles que tem esse tempo não se preocupam em fazê-lo, assim como os que o fazem não se preocupam em espalhar esse conhecimento, pois como eu disse, o conhecimento é poder, e o poder é perigoso demais pra ser distribuído sem escrúpulos. O segredo hoje não está mais trancado em baús ou masmorras; ele está soterrado pelo ruído.
O filósofo francês Blaise Pascal escreveu no século XVII algo que parece prever as redes sociais e o estilo de vida atual: "Toda a infelicidade dos homens vem de uma só coisa, que é não saberem permanecer em repouso num quarto". Se isso já era verdade antes da eletricidade, imagine hoje.
Essa dinâmica cria um ciclo perfeito de blindagem desse conhecimento através de três fatores principais do mundo moderno:
1. O Ruído Ocupacional (A "Economia da Atenção")#
Hoje, a nossa atenção é a mercadoria mais valiosa do planeta. Algoritmos bilionários são desenhados especificamente para nos manter num estado de dopamina constante, pulando de um vídeo de 15 segundos para outro, checando notificações e nos preocupando com o caos do mundo exterior.
O silêncio virou um artigo de luxo inacessível para a maioria. Para encontrar o "observador" dentro de si, é preciso desacelerar as ondas cerebrais, mas o mundo moderno exige que operemos em um estado de alerta e ansiedade constante. A mente barulhenta não consegue ouvir as frequências mais sutis da natureza.
2. O Filtro do Ego e do Materialismo#
Aqueles que têm tempo e recursos econômicos para desfrutar do ócio raramente o usam para o autoconhecimento profundo. O privilégio, no mundo ocidental, costuma ser canalizado para o consumo, o status e a distração. Há uma inversão de valores: busca-se preencher o vazio interno acumulando coisas no mundo externo.
3. O Silêncio dos que Sabem (A Autoproteção do Saber)#
É isso que resume a ética de quase todos os verdadeiros mestres, xamãs e iogues da história: "O poder é perigoso demais para ser distribuído sem escrúpulos".
A pessoa que realmente consegue silenciar a mente, romper a ilusão do ego e acessar o "observador" passa por uma transformação interna tão profunda que o seu próprio sistema de desejos muda. Ela percebe que:
- Não há necessidade de provar nada: O desejo de "espalhar" o conhecimento para as massas muitas vezes nasce do ego (o desejo de ser aplaudido, de ser o líder, de ter seguidores). Quem atinge o verdadeiro silêncio perde esse apetite.
- O conhecimento exige maturidade: Entregar ferramentas de manipulação da realidade ou de expansão mental para uma humanidade que ainda é movida pela ganância, pelo ódio e pela imaturidade emocional é o equivalente a dar uma granada na mão de uma criança. A história está cheia de exemplos de conhecimentos científicos (como a fusão nuclear) que foram transformados em armas assim que caíram no domínio público.
"Quem fala não sabe, quem sabe não fala." — Lao Tsé (Tao Te Ching)
No fim das contas, a própria estrutura caótica do mundo moderno funciona como o "guardião do portal" mais eficiente que já existiu. Ela garante que apenas aqueles que têm uma vontade genuína, quase obsessiva, de encontrar a verdade consigam cavar um espaço de silêncio na própria rotina para olhar para dentro.
Esse sistema parece tão "perfeito" para trancar o portão que até parece planejado, uma sociedade sem tempo para descobrir a si própria é o cenário perfeito pra manter o conhecimento apenas pra quem já o possui. Mas o stress e a pressão constante leva muitas pessoas a abandonar tudo e ir pro meio do mato, pra fugir do movimento das cidades e das cobranças, e quem sabe um dia, isso sirva pra finalmente nos encontrarmos novamente
Sobre a Redescoberta do Eu#
É impossível não olhar para a estrutura do mundo moderno e não sentir um calafrio ao perceber o quão perfeitamente ela funciona como uma máquina de moer a subjetividade e o tempo humano.
Seja isso o resultado de um plano consciente de elites que lucram com a nossa distração (a velha máxima do "pão e circo"), ou seja apenas a evolução natural de um sistema econômico que descobriu que seres humanos ansiosos e vazios consomem muito mais do que seres humanos plenos e silenciosos, o resultado é o mesmo: um confinamento mental em massa.
Mas é aí que entra a beleza da própria natureza, que opera por meio do Princípio do Ritmo e da Polaridade que mencionamos antes. Todo sistema levado ao seu extremo gera a sua própria força de oposição.
A Panela de Pressão Humana#
O estresse, a estafa mental e a crise de sentido que o mundo moderno injeta nas pessoas funcionam como uma panela de pressão. Quando a pressão se torna insuportável, a válvula estoura. Esse movimento de pessoas "abandonando tudo e indo para o mato" — buscando o minimalismo, o neoruralismo, o isolamento ou simplesmente uma vida mais simples — não é apenas uma escolha de estilo de vida; é um mecanismo de defesa biológico e espiritual.
Quando o ruído da cidade é silenciado pelo som do vento nas árvores, o cérebro finalmente sai do modo de sobrevivência (luta ou fuga) e entra no modo de restauração. É nesse espaço de transição que a mágica acontece. A pessoa não vai para a floresta para "aprender magia", ela vai para desaprender o barulho. E, ao desaprender o barulho, o "observador", que sempre esteve ali esperando, finalmente recupera o microfone.
O Retorno ao Lar#
O filósofo Alan Watts dizia que o universo é como uma corrente de ondas: ele se estende ao máximo em direção ao caos e à multiplicidade, para depois se recolher de volta à unidade e ao silêncio.
A história da humanidade pode estar passando por esse exato momento de distensão máxima. Fomos o mais longe que podíamos na tecnologia, na velocidade, no barulho e na desconexão. O ápice do cansaço coletivo pode ser, ironicamente, o gatilho que nos forçará a olhar para trás.
Esse êxodo — seja físico (indo para o mato) ou mental (criando ilhas de silêncio na rotina) — pode ser o início de um reencontro em larga escala. A porta que o sistema tentou trancar com tanto esmero não é trancada por fora; a chave sempre esteve do lado de dentro. O sistema só consegue nos manter longe dela enquanto estivermos ocupados demais para olhar para as nossas próprias mãos.
Conclusão dessa Viagem Mental#
Se deixarmos de lado as amarras da física atual — aceitando que ela é uma ciência em constante evolução e que, sim, faltam peças gigantescas no quebra-cabeça do universo —, é totalmente possível reencontrar chaves do conhecimento.
A própria história dos grandes místicos, iogues e alquimistas prova isso. Eles não tinham aceleradores de partículas ou supercomputadores; eles tinham apenas o próprio corpo e a própria mente como laboratório. Se a realidade oculta é uma lei da natureza, a "fechadura" está moldada na própria biologia humana. Quem consegue hackear o próprio foco, silenciar o ego e sintonizar a percepção além do espectro comum, inevitavelmente esbarra na chave. O impossível é apenas o que ainda não foi decodificado.
Se tudo isso que falamos for condizente com a realidade, penso que a tradição taoísta seja um dos caminhos para se encontrar, assim como a mitologia chinesa com seus sábios imortais. Devemos nos focar na meditação e no autoconhecimento, afim de conhecermos aquele que nos torna nós mesmos, o observador que acompanha cada uma de nossas ações.
O Taoismo não gasta tempo tentando convencer ninguém através de dogmas; ele é pura observação da natureza e da mente.
Na mitologia chinesa, os Xian (os Imortais) não eram seres que nasceram com superpoderes, mas humanos comuns que, através da alquimia interna (Neidan) e do cultivo da energia (Qigong), sintonizaram-se tanto com as leis do universo (o Tao) que transcenderam as limitações da biologia e do tempo. Eles se tornaram a própria natureza.
Para se conectar com o "observador" — que no Taoismo é muitas vezes associado à nossa face original ou ao Espírito Original (Yuan Shen) —, o segredo não é adicionar nada à sua mente, mas sim subtrair. Como dizia Lao Tsé no Tao Te Ching:
"Para adquirir conhecimento, adicione coisas todos os dias. Para cultivar a sabedoria, subtraia coisas todos os dias."
Aqui estão algumas chaves práticas e tradicionais para começar a desatar as amarras da mente e sintonizar o observador:
1. A Prática do Zuowang (Sentar-se e Esquecer)#
Esta é a meditação taoista em sua forma mais pura. Diferente de meditações onde você precisa focar em um mantra ou visualizar algo complexo, o Zuowang é a arte do desinvestimento.
- Como fazer: Sente-se confortavelmente, feche os olhos e respire naturalmente. Em vez de tentar "parar de pensar" (o que cria mais estresse e barulho), adote a postura de um espectador no cinema.
- O Segredo: Se um pensamento de preocupação surgir, não brigue com ele. Apenas observe-o passar como uma nuvem no céu. Ao fazer isso, você quebra a identificação. Você percebe o óbvio: Se eu sou capaz de ver o pensamento passar, eu não sou o pensamento. Eu sou o espaço onde o pensamento acontece. Esse espaço é o observador.
2. Cultivar o Wu Wei (A Ação Não-Agida)#
As amarras da mente moderna vêm do excesso de controle, do planejamento obsessivo e da ansiedade pelo futuro. O Wu Wei é o princípio de fluir com a vida, assim como a água flui por um rio, contornando as pedras sem gastar energia lutando contra elas.
- Como aplicar: Comece a observar suas reações diárias. Quando algo der errado, em vez de deixar a mente criar um drama espiralado de pensamentos, respire e pergunte-se: "Como a natureza resolveria isso?". A natureza não se apressa, e tudo é realizado. Diminua o ritmo interno da urgência.
3. Dissolver os Três Tesouros (San Bao)#
No taoismo, nós somos compostos por três energias: Jing (essência física/corpo), Qi (energia vital/respiração) e Shen (espírito/consciência). Para chegar ao espírito (o observador), você precisa acalmar as duas camadas anteriores:
- Acalmar o Jing (Corpo): Encontre momentos de quietude física absoluta. O corpo precisa estar relaxado, sem tensões desnecessárias. Vá para o meio da natureza sempre que puder; as árvores e a terra ajudam a aterrar a estática eletromagnética do corpo.
- Acalmar o Qi (Respiração): A mente e a respiração são gêmeas. Se sua respiração for curta e rápida, sua mente será caótica. Pratique a respiração abdominal, lenta e profunda. Quando sua respiração se torna sutil e quase imperceptível, a mente automaticamente silencia.
4. O Jejum do Coração/Mente (Xin Zhai)#
Mencionamos que o sistema atual nos bombardeia com ruído. Para se libertar, você precisa fazer uma "dieta de inputs".
- Reserve a primeira hora do seu dia e a última hora antes de dormir para o silêncio total. Sem telas, sem músicas, sem notícias. Deixe que sua mente experimente o tédio benéfico. É no vazio do tédio que o observador desperta, porque ele finalmente tem espaço para aparecer.
O mapa do processo: No começo, quando você fechar os olhos, vai parecer que a sua mente é uma gaiola cheia de macacos barulhentos. Não desanime. Esse é o primeiro sinal de sucesso: você finalmente percebeu o tamanho do barulho. O simples fato de você notar que a mente é barulhenta significa que o Observador já deu o primeiro passo para fora da névoa.
Você está prestes a iniciar a jornada mais antiga e recompensadora da humanidade. Vá sem pressa, como a água que pacientemente molda a rocha mais dura.