106 Urnas, Zero Votos - A Votação de Flávio Bolsonaro em Comunidades Indígenas, Quilombolas e Rurais
Considerações Iniciais#
Os resultados de 2026 não representam um fenômeno inteiramente novo. Nas mesmas urnas, candidatos do PT já haviam recebido quase todos os votos válidos em 2018 e 2022. A votação de 2026 deve ser analisada à luz desse histórico, das características dos locais de votação e das diferenças entre as propostas dos candidatos sobre demarcação de terras indígenas, direitos territoriais e proteção ambiental.
Há, porém, uma distinção fundamental: os dados comprovam como as pessoas votaram, mas não revelam diretamente por que cada eleitor escolheu seu candidato. As propostas políticas podem ajudar a explicar o padrão, mas essa relação deve ser analisada apenas como hipótese fundamentada, não como motivação comprovada de todos os eleitores.
O Resultado que Chamou Atenção#
Urnas sem votos válidos para Flávio | 106 |
Seções atendidas por essas urnas, incluindo agregadas | 127 |
Eleitores aptos nessas urnas | 18.508 |
Eleitores que compareceram | 15.222 |
Votos válidos para Lula | 14.860 |
Votos brancos e nulos | 362 |
Municípios com urnas desse tipo | 67 |
Urnas sem votos para Lula | 4 |
Votos válidos para Flávio nessas urnas | 296 |
!!!ATENÇÃO!!!
- Uma urna com zero votos para Flávio não significa que ninguém votou nela. Significa que nenhum dos votos válidos registrados naquela urna foi destinado ao candidato.
- Nas 106 urnas analisadas, Lula recebeu 14.860 votos, enquanto os outros 362 votos foram brancos ou nulos.
- O levantamento contabiliza 106 urnas físicas que atendiam 127 seções eleitorais, porque algumas urnas receberam seções agregadas.
O Histórico Eleitoral - Não Começou em 2026#
O levantamento a seguir compara as mesmas urnas e os mesmos locais identificados na ocasião.
| Seções Comparáveis Identificadas | Comparecimentos | Votos no Candidato do PT | Percentual do Candidato do PT | Votos no Candidato do Bolsonaro | Outros Candidatos | Brancos e Nulos | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
1º Turno de 2018 | 47 | 7.294 | 6.765 | 95,97% | 34 | 250 | 245 |
2º Turno de 2018 | 47 | 7.050 | 6.680 | 99,18% | 55 | 0 | 315 |
1º Turno de 2022 | 61 | 9.293 | 8.774 | 97,26% | 73 | 174 | 272 |
2º Turno de 2022 | 61 | 9.388 | 8.918 | 98,86% | 103 | 0 | 367 |
1º Turno de 2026 | 106 | 14.912 | 14.389 | 98,27% | 118 | 135 | 270 |
2º Turno de 2026 | 106 | 15.222 | 14.860 | 100% | 0 | 0 | 362 |
Esses números mostram que a votação de Lula nas urnas analisadas foi extremamente elevada em eleições anteriores. Em 2022, por exemplo, Jair Bolsonaro recebeu apenas 103 votos no segundo turno dessas 61 urnas, enquanto Lula obteve 8.918.
Em 2026, Flávio recebeu 118 votos no primeiro turno, mas nenhum no segundo, nas 106 urnas identificadas pelo levantamento.
Como Interpretar Essa Mudança?#
Há duas observações importantes:
- A preferência pelo candidato do PT já era muito forte antes da candidatura presidencial de Flávio.
- O número de locais identificados aumentou de 47 em 2018 para 61 em 2022 e 106 em 2026. Isso não significa necessariamente que mais comunidades passaram a rejeitar candidatos da família Bolsonaro: o levantamento de cada eleição depende dos locais e das seções que puderam ser comparados.
Observação Importante#
Os percentuais acima não representam a votação de todos os povos indígenas ou de todas as comunidades quilombolas. Eles correspondem a um conjunto específico de seções que, em 2026, registraram zero votos para Flávio. O recorte foi definido a partir do resultado eleitoral de 2026 e depois comparado com eleições anteriores. Isso pode produzir uma seleção enviesada se os números forem apresentados como retrato geral desses povos. O objetivo aqui é apenas a comparação DESSAS SESSÕES ESPECÍFICAS.
Onde Estão Essas Urnas?#
Segundo o levantamento da Paris Group, as 106 seções sem votos para Flávio estavam distribuídas por 67 municípios de 18 estados. A concentração era maior no Norte e no Nordeste. (Paris Group)
Os estados do Amazonas, Maranhão, Pará, Roraima e Tocantins concentram 81 dos 106 casos, aproximadamente 76,4%.
Quais tipos de locais aparecem?#
O levantamento classificou os locais a partir de seus nomes, endereços e coordenadas geográficas. Os resultados incluem:
- 67 urnas em aldeias, escolas ou territórios indígenas, conforme critérios de identificação do estudo;
- quatro em locais identificados como quilombolas;
- duas em unidades prisionais;
- outras em comunidades rurais, ribeirinhas, povoados e assentamentos.
A classificação territorial é aproximada. Uma escola pode atender uma comunidade indígena mesmo que seu nome não contenha a palavra “aldeia”, enquanto uma escola com “quilombola” no nome pode atender eleitores de uma área maior. O próprio levantamento reconhece essas limitações. (WCota)
Amazonas | 30 |
Maranhão | 20 |
Pará | 16 |
Roraima | 8 |
Tocantins | 7 |
Mato Grosso | 5 |
Bahia | 4 |
Acre | 3 |
Minas Gerais | 2 |
Ceará | 2 |
Rio Grande do Sul | 2 |
Piauí | 1 |
Mato Grosso do Sul | 1 |
Paraná | 1 |
Espírito Santo | 1 |
Paraíba | 1 |
Pernambuco | 1 |
Rondônia | 1 |
Total | 106 |
Quem São Essas Comunidades e Por Que a Terra é Tão Importante?#
1. A população indígena brasileira#
Segundo o Censo Demográfico de 2022, o Brasil tinha 1.694.836 pessoas indígenas, aproximadamente 0,83% da população contabilizada pelo IBGE. Em 2010, haviam sido registradas 896.917 pessoas indígenas.
Isso representa um aumento de aproximadamente 88,96% em 12 anos. O IBGE ressalva que o crescimento está relacionado, em grande parte, a melhorias metodológicas na identificação e no recenseamento dessa população, e não deve ser interpretado simplesmente como crescimento natural. (IBGE)
Outros dados importantes:
- 490.935 indígenas viviam no Amazonas, segundo os resultados do Censo de 2022.
- 229.443 viviam na Bahia.
- 622.844 indígenas residiam em terras indígenas, segundo a classificação territorial apresentada pelo IBGE.
- 914.746 viviam em áreas urbanas, enquanto 780.090 viviam em áreas rurais. (IBGE)
Esses números ajudam a contextualizar a concentração de urnas sem votos para Flávio no Norte do país, mas não demonstram, por si sós, uma relação causal entre população indígena e preferência pelo PT.
2. A população quilombola#
O Censo de 2022 identificou 1.327.802 pessoas quilombolas, correspondentes a 0,65% da população brasileira. Desse total, 905.415 viviam no Nordeste, aproximadamente 68,19% da população quilombola do país. (Educa IBGE)
A Bahia concentrava 397.059 quilombolas, cerca de 29,90% do total nacional. O Maranhão tinha 269.074, enquanto Minas Gerais registrava 135.310. (Educa IBGE)
Esses dados podem ser relacionados à distribuição regional dos locais de votação, mas é necessário distinguir três categorias:
- Pessoas que se identificam como quilombolas.
- Pessoas que vivem em territórios quilombolas oficialmente reconhecidos.
- Eleitores que votam em locais de votação associados a comunidades quilombolas.
Essas categorias não são equivalentes. O próprio IBGE registrou que apenas 12,6% da população quilombola recenseada vivia em territórios oficialmente reconhecidos em 2022. (Educa IBGE)
3. O marco constitucional de 1988#
A Constituição Federal de 1988 estabeleceu duas garantias fundamentais para a discussão.
Povos indígenas: o artigo 231 reconhece sua organização social, seus costumes, línguas, crenças e tradições, além dos direitos originários sobre as terras tradicionalmente ocupadas. A União tem a responsabilidade de demarcar essas terras e proteger os direitos associados a elas. (Serviços e Informações do Brasil)
Comunidades quilombolas: o artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias reconhece a propriedade definitiva das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos e atribui ao Estado a emissão dos títulos correspondentes. O Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003, regulamentou o procedimento de identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação desses territórios. (Querepublica Essa)
O Que Flávio Bolsonaro Defendia Sobre Terras Indígenas?#
9 de Abril de 2026#
Durante a Expogrande, em Campo Grande (MS), Flávio defendeu o marco temporal e afirmou que, após determinado período, as terras não demarcadas deveriam deixar de ser demarcadas.
Aqui ele demonstra sua posição sobre a limitação de novas demarcações.22 de Abril de 2026#
Em Sinop (MT), afirmou que, se dependesse de seu governo, nenhuma nova reserva indígena seria demarcada no estado.
Reforça que a oposição a novas demarcações era uma posição pública do candidato.9 de Outubro de 2026#
Reportagem sobre seu plano de governo apontou propostas para revisar as atribuições de órgãos ambientais, modificar procedimentos de licenciamento e ampliar atividades econômicas.
Permite relacionar declarações de campanha ao programa formal.20 de Outubro de 2026#
Reportagem estimou que 286 processos de terras indígenas poderiam ficar sem conclusão caso a promessa de bloquear novas demarcações fosse aplicada.
Dá dimensão concreta aos efeitos potenciais da proposta.Fontes: CNN Brasil, 10 de abril, InfoMoney, 23 de abril, Folha de S.Paulo, 9 de outubro e Folha de S.Paulo, 20 de outubro.
O Dado dos 286 Territórios:#
Segundo a reportagem da Folha publicada em 20 de outubro, a promessa de Flávio de não realizar novas demarcações poderia paralisar a conclusão de 286 processos territoriais indígenas.
Nesse conjunto, havia:
- 45 terras delimitadas, com estudos concluídos e aprovados pela Funai.
- 73 terras declaradas, cujos limites já haviam sido reconhecidos por portaria do Ministério da Justiça.
Essas duas categorias somam 118 processos em estágios avançados. Os outros 168 casos estavam em diferentes fases administrativas, conforme o levantamento citado pela reportagem. (Folha)
O marco temporal e a decisão do STF#
A disputa sobre o marco temporal é essencial para compreender o contexto jurídico.
Em 21 de setembro de 2023, o Supremo Tribunal Federal rejeitou a tese de que os povos indígenas precisariam comprovar a ocupação de suas terras em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição, para ter direito à demarcação. O julgamento terminou com nove votos contrários à tese e dois favoráveis. Portal STF
Flávio defendeu o marco temporal em abril de 2026, afirmando que terras não demarcadas até determinado momento não deveriam continuar em processo de demarcação. Isso o colocava em oposição à interpretação constitucional estabelecida pelo STF naquele julgamento, embora a situação jurídica posterior também dependa de legislação e decisões judiciais supervenientes.
O Que os Resultados Eleitorais Mostram Sobre Indígenas e Quilombolas?#
Resultados do primeiro turno de 2026#
Em reportagem publicada em 9 de outubro, a CNN Brasil analisou dados do TSE referentes a locais de votação associados a comunidades indígenas e quilombolas.
Entre os principais resultados:
- Lula recebeu 82,93% dos votos válidos nos locais indígenas analisados.
- Venceu em 493 dos 542 locais de votação indígenas mapeados.
- Flávio venceu em 48 desses locais.
- Em Roraima, Flávio venceu em 28 dos 60 locais indígenas analisados.
- Nas comunidades quilombolas, Lula obteve 64,91% dos votos válidos e venceu em 101 dos 110 locais mapeados. (CNN Brasil)
Esses números mostram que o apoio a Lula era expressivo em muitos locais indígenas e quilombolas antes do segundo turno, mas também revelam diferenças importantes entre territórios.
Roraima é um exemplo particularmente útil: Flávio venceu em 28 dos 60 locais indígenas analisados no estado, e recebeu 56,39% dos votos válidos nesse recorte, contra 22,86% de Lula. (CNN Brasil)
Esse contraste é importante porque impede uma conclusão simplista de que todas as comunidades indígenas votam da mesma maneira.
Por Que Zero Votos NÃO Significa Fraude?#
O levantamento da Paris Group identificou 110 seções eleitorais nas quais apenas um dos dois candidatos recebeu votos válidos no segundo turno de 2026: em 106, Flávio não recebeu nenhum; em quatro, Lula não recebeu nenhum.
No segundo turno de 2022, houve 143 seções com essa característica: 141 sem votos para Jair Bolsonaro e duas sem votos para Lula. (Paris Group)
Isso demonstra que seções com votação concentrada em apenas um candidato já existiam na eleição anterior.
Outro dado relevante é o tamanho das urnas. No levantamento que identificou as 106 urnas sem votos para Flávio, a mediana era de 165 eleitores por urna, contra 327 no conjunto nacional. Seções pequenas e com preferências eleitorais muito concentradas têm maior probabilidade de produzir um resultado de zero votos para um candidato. (WCota)
O que seria necessário para sustentar uma suspeita de fraude?#
Seria necessário apresentar evidências específicas, como:
- divergências entre os boletins de urna e os resultados publicados;
- inconsistências documentadas na apuração;
- irregularidades comprovadas na identificação dos eleitores ou no funcionamento das urnas;
- outros elementos técnicos que indiquem adulteração.
A ausência de votos para um candidato não constitui, isoladamente, evidência de fraude. O TSE disponibiliza boletins de urna e outros arquivos públicos que permitem verificar os resultados por seção eleitoral. (TSE)
Por que Flávio Bolsonaro recebeu zero votos em 106 urnas??#
Primeiro: o resultado não surgiu do nada. Nas mesmas urnas, candidatos do PT já tinham recebido percentuais extremamente elevados em 2018 e 2022.
Segundo: a votação de 2026 ocorreu em um contexto de disputa sobre direitos territoriais. Flávio Bolsonaro defendeu o marco temporal e a interrupção de novas demarcações indígenas, enquanto seu programa também apresentou propostas sobre autonomia econômica e compensações relacionadas ao uso desses territórios.
Terceiro: os dados eleitorais não revelam, sozinhos, a motivação de cada voto. O histórico eleitoral e as propostas de governo ajudam a contextualizar o resultado, mas uma conclusão causal exige evidências adicionais.
O zero não é uma explicação em si, mas o ponto de partida para investigar uma preferência eleitoral histórica e sua relação com as disputas sobre território, direitos e políticas públicas.
Referências#
Paris Group - Acesso em 29/10/2026
WCota - Acesso em 29/10/2026
IBGE - Acesso em 29/10/2026
Educa IBGE - Acesso em 29/10/2026
Serviços e informações do Brasil - Acesso em 29/10/2026
Querepublica Essa - Acesso em 29/10/2026
CNN Brasil, 10 de abril - Acesso em 29/10/2026
InfoMoney, 23 de abril - Acesso em 29/10/2026
Folha de S.Paulo, 9 de outubro - Acesso em 29/10/2026
Folha de S.Paulo, 20 de outubro - Acesso em 29/10/2026
Folha - Acesso em 29/10/2026
Portal STF - Acesso em 29/10/2026
CNN Brasil - Acesso em 29/10/2026
TSE - Acesso em 29/10/2026